Sábado de carnaval no DF reúne amor, diversidade e gerações nas ruas, com blocos lotados, fantasias criativas e histórias emocionantes
Pedro Henrique participou pela primeira vez da folia em família – (crédito: Luiz Fellipe CB/DA Press)
As ruas do Distrito Federal foram tomadas, nesse sábado, por cores, música e milhares de foliões neste carnaval. Do samba ao axé, passando pelo pagode e pelas marchinhas, blocos espalhados pela capital garantiram uma programação diversa e arrastaram públicos animados ao longo do dia. Em diferentes regiões administrativas, a festa ocupou espaços públicos e reforçou o caráter democrático da folia, que une tradição, criatividade e celebração coletiva.
Entre os foliões, o professor Carlos Cardoso, 36 anos, e a servidora pública Natália Cardoso, 32, contaram que o Carnaval tem um significado especial. “A gente se conheceu no Carnaval, há 10 anos, e sempre que dá a gente sai, curte e se diverte. Este ano estamos aproveitando de um jeito diferente, porque nossa bebê está chegando. Ela já está sentindo a vibe do Carnaval na barriga”, disse Carlos.
O amor também ganhou destaque no Bloco do Amor, com o casal de psicólogos Emilio Silva, 30, e Renata Silva, 30, que oficializaram a união no cartório em 6 de fevereiro, mas decidiram que a comemoração não ficaria restrita à formalidade.
Fantasiados de noivo e noiva em uma versão mais sensual e livre, o casal celebrou a nova fase em meio à multidão. “Nós acabamos de casar no cartório e resolvemos fazer nossa cerimônia no carnaval, no melhor estilo: animação e festa. Chamamos fevereiro de nosso mês. Então, a gente escolheu essa data para ser o nosso casamento. A fantasia representa esse nosso momento”, contou Emilio.
Para Renata, a escolha também simboliza uma trajetória construída ao longo dos anos. “São 10 anos juntos e 10 carnavais vividos juntos. Só em Brasília foram seis. Sempre conhecemos pessoas maravilhosas aqui”, destacou.
Diversidade
O carnaval do Distrito Federal também foi espaço de afirmação, criatividade e pertencimento. Drag queen há oito anos, Brenda Max encontrou no Baile da Piki um ambiente de acolhimento e segurança para a comunidade LGBTQIAPN . “É um bloco muito importante para a nossa comunidade. Temos o direito de ocupar esse espaço e ocupar todos os outros”, disse.
Nascida e criada em Arniqueira, ela destaca o clima do bloquinho. “É bem aconchegante. Acaba sendo fácil porque fica perto da minha casa. Além disso, permite que nossa comunidade tenha um espaço livre e democrático”, comentou. Assídua foliã, Brenda acompanha a evolução da festa na capital. “Brasília tem o melhor carnaval do Centro-Oeste e um dos melhores do Brasil. É maravilhoso que nossa comunidade esteja conseguindo conquistar muito espaço nos últimos anos”, afirmou.
Se para Brenda o carnaval é território de representatividade, para outros foliões a data é sinônimo de criatividade levada ao extremo. Foi o caso do servidor público Evandro Alves Rodrigues, 42, que decidiu confeccionar a própria fantasia para os quatro dias de festa. Vestido de Poseidon, o deus grego dos mares, tempestades e terremotos, ele marcou presença no Setor Carnavalesco Sul. “Eu curto muito a mitologia grega e, como sou apaixonado pelo carnaval, quis fazer minha fantasia, fiz tudinha à mão. Até o tridente e a coroa, eu confeccionei”, conta.
A dedicação artesanal também marcou a experiência de um grupo de oito amigos no Bloco do Amor que se inspiraram na saga de ficção científica Avatar. Unidos há quatro anos, desde o ensino médio, eles decidiram viver o primeiro carnaval em grupo com uma regra: todos precisariam estar pintados.
Responsável pela maquiagem, a estudante Maryana Cristina de Oliveira, 19, explicou a escolha. “É nosso primeiro carnaval em grupo. Normalmente, cada um vai para um canto. Na escola, adorávamos os trotes e essa foi a oportunidade perfeita para vivermos isso de novo. Avatar foi a ideia mais legal que a gente pensou”, disse.
A amiga Lais Mayra dos Santos, 19, reforçou que o espírito era coletivo. “Todo mundo quer ficar bonito no carnaval, mas o nosso foco era se pintar, ser criativos e fazer uma fantasia engraçada. Carnaval é curtir. Não é só ficar bonito e posar para a foto, é curtir com os amigos e fazer muita festa”, afirmou.
Gerações
Entre fantasias coloridas e blocos familiares, muitas histórias começaram a ser escritas ali, no meio da folia. Para Flávia Viana, o sábado teve gosto de estreia. Foi a primeira vez que levou a filha, Alícia, de 7 anos, ao bloco de Carnaval no Brincantes do Gama. Mãe em tempo integral, ela contou que a rotina e o nascimento do filho mais novo, de 2 anos, haviam adiado a experiência. “Quando eu vi que ia ter o carnaval aqui, pensei: ‘Vou levá-la’. Ela gosta muito de ver gente, de ver tudo colorido, achei que ia ser bom”, contou.
Alícia tem paralisia cerebral, com comprometimento motor, mas compreende tudo ao redor. A expectativa começou ainda na véspera. “Desde ontem eu falava que a gente ia para a festa. Ela ficou ansiosa o dia inteiro, olhando para a bolsinha que eu arrumei para passear”, afirmou.
Para Flávia, eventos como o Brincantes são importantes pelos estímulos visuais e sensoriais. “O visual é incrível, tudo muito colorido, a música. Isso já chama a atenção deles”, destacou.
O servidor Pedro Henrique, 25, participou pela primeira vez da folia em família, ao lado da esposa Aline, 35, e da pequena Zoe, no tradicional bloquinho Mamãe Taguá, no Taguaparque. “É muito divertido e bom para as crianças. É uma boa oportunidade delas começarem a curtir o carnaval”, afirmou. Aline acredita que a experiência nessa idade contribui para o desenvolvimento da filha. “Ela está gostando muito de estar aqui. É um momento mágico para ela”, comentou.
Enquanto alguns iniciam a tradição, outros já transformaram a festa em ritual anual. Débora Penteado e Bernardo Sicsú, ambos de 38 anos, se fantasiam juntos há oito anos — sempre com produções combinando. Pais de Theo Sicsú, 8, e Isaac Sicsú, 6, o casal planeja o tema com antecedência. Em 2026, a escolha foi inspirada no filme Bee Movie. “No ano passado, a gente se vestiu de Turma da Mônica. O Bernardo estava fantasiado de Mônica. É sempre muito gostoso experienciar o carnaval de Brasília, especialmente pela segurança. Ideal para famílias”, descreve Penteado, dona de uma loja de fantasias.
