Milhares de mulheres podem se sentir inseguras ao sair às ruas no carnaval por medo de serem importunadas. Segurança reforça prevenção e proteção. Especialistas orientam sobre como agir diante desse tipo de violência e explicam o que a caracteriza
“Não é não” – (crédito: Valdo Virgo)
Por Carlos Silva, Vitória Torres e Walkyria Lagaci* — O carnaval começou e os foliões do Distrito Federal estão animados. Mesmo assim, milhares de mulheres se sentem inseguras ao sair às ruas devido ao medo de sofrer algum tipo de assédio ou importunação sexual no feriado.
Convidada para ser mestre de cerimônia do Bloco do Amor, a atriz Taina Cary, 30 anos, faz um alerta. Neste sábado (14/2), ela viveu uma situação de assédio enquanto curtia a folia ao lado da irmã, Naomi Cary. “Aconteceu uma situação de assédio que não foi nada legal. Foi uma pessoa que não aceitou o não. Ofereceu até dinheiro”, relatou
Segundo a atriz, o bloco foi escolhido por fatores que, para ela, fazem diferença em meio às preocupações que ainda cercam as mulheres durante a festa. “Vim para esse bloco pela questão da diversidade, da segurança, da identificação e por ser um local onde sempre encontro todas as minhas amizades. Encontro todos os que eu gosto e que fazem sentido para minha vida”, conta.

Apesar de destacar que consegue aproveitar a festa se sentindo protegida ao lado do grupo de amigas, Taina afirma que essa sensação ainda não é plena. “Não acho tão seguros os carnavais de Brasília, mas também não vejo nenhum absurdo. Estando com amigas, ficando alerta, dá para curtir de boa”, diz.
Para Taina, o problema está na interpretação equivocada que alguns homens fazem sobre a liberdade feminina durante o carnaval. “Eu acho que no carnaval as pessoas entendem, por causa da vestimenta, da liberdade, que têm muitas mulheres fazendo programa, ou até mesmo que têm mais liberdade com o nosso corpo. Não é programa, é carnaval. As pessoas vão sair só de biquíni, de calcinha, de sutiã, porque querem e têm o direito de fazer isso”, afirma.
“É só uma vez por ano que rola carnaval”, observa. “Aí, sempre tem gente para estragar isso. Muito errado”, completou.
O que fazer
Embora dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF) indiquem que não houve registro formal de ocorrências de assédio especificamente durante o período carnavalesco nos últimos dois anos, a realidade da violência de gênero permanece preocupante. Em 2025, até junho — último balanço divulgado — foram contabilizados 48 casos de assédio em todo o DF.
A consultora em gênero e raça Kelly Quirino orienta sobre o que pode ser feito em situações de assédio, durante o período das festividades. “É preciso que as mulheres tenham o seu ‘não’ respeitado. Quando isso não acontece, é importante que elas procurem os organizadores do bloco, do evento, para denunciar o importunador; tentar pedir ajuda para pessoas próximas e outras mulheres”, explica.
Caso esteja com outras mulheres, pedir auxílio a elas. “Tentar fazer algum registro do abusador, sejam imagens ou vídeos, para denunciá-lo. Disque 180, é importante, além de fazer um boletim de ocorrência. Se necessário, ir à delegacia para coletar o corpo de delito”, completa.
Um momento de curtição pode se tornar um trauma terrível para uma mulher que sofre assédio enquanto apenas busca festejar. “Embora elas queiram se divertir, expressar-se e desfrutar da liberdade e autonomia, vivemos em uma cultura que é marcada por uma estrutura machista, patriarcal”, avalia a especialista em psicologia social do Centro Universitário de Brasília (Ceub) Flávia Timm.
A doutora destaca que a insegurança afeta as mulheres nos momentos de festa, porque alguns homens não sabem diferenciar paquera de assédio. “A paquera é quando o homem respeita a reciprocidade desse enlace. Então, ele está interessado e percebe que a outra pessoa também está interessada, quando ela responde positivamente, com entusiasmo, àquele investimento”, explica. “O assédio é uma imposição, é um uso do poder. É quando o homem ignora a recusa e as manifestações não verbais da mulher”, completa.
Além disso, a especialista reforça que o silêncio não é sinal de concordância ou reciprocidade. “É importante entender que o não consentimento não precisa ser dito em palavras. Se alguém pensa que está paquerando, mas a outra pessoa não está confortável, está constrangida ou demonstra medo, isso não é paquera. Isso é assédio.”
Todo o histórico de assédios no carnaval coloca a mulher em uma posição de medo e insegurança, que muitas vezes, não é compreendida. “A insegurança das mulheres não é um exagero ou medo irracional, mas sim, uma realidade e uma resposta à violência e a uma cultura que objetifica o corpo feminino, não reconhecendo sua alteridade e liberdade”, ressalta Flávia.
Onde pedir ajuda em caso de assédio
» Polícia Militar — 190
» Central do GDF —156 – opção 8
